Muito provavelmente você já ouviu falar de Gui Bonsiepe. Principalmente se você é da área de design industrial. Eu por exemplo, tive o primeiro contato com a metodologia projetual de Gui Bonsiepe na faculdade, logo que entrei no curso de graduação em design de produto, no qual sou formado.

Seja qual for a área do design, sempre vamos nos deparar com diversas metodologias. Sejam elas metodologias de projeto ou até mesmo metodologias de ensino. Por isso, hoje escrevo este resumo para que você possa aplicar a metodologia em projetos de produtos.

Em resumo a metodologia projetual de Bonsiepe fornece uma orientação para o processo projetual de produtos. A metodologia foi criada em 1983 pelo designer Georg Hans Max Bonsiepe, mais conhecido mundialmente como Gui Bonsiepe. Sobretudo, Bonsiepe criou métodos para o desenvolvimento de produtos através de projetos experimentais.

Dessa forma, Bonsiepe defende que o desenhista projetual deve ter uma liberdade relativa na seleção de alternativas para o seu projeto. Portanto, o designer pode tomar decisões pessoais devido a sua competência profissional. Sendo assim, Bonsiepe somente sugere as propostas por ele utilizadas, que poderão ser selecionadas para o desenvolvimento de outros novos produtos.

Quem é Gui Bonsiepe?

Antes de tudo, vamos conhecer um pouco sobre autor da metodologia. Gui Bonsiepe é designer formado pela Hochschule für Gestaltung, uma escola de design baseada na cidade de Ulm na Alemanha. Além disso, Bonsiepe atuou como professor titular do Departamento de Design Industrial e Comunicação Visual na escola de design de Ulm até 1968, quando a escola fechou.

Bonsiepe também atuou no Chile, Argentina e no Brasil, onde ele foi pesquisador do CNPq. Inclusive, Bonsiepe criou o Laboratório Brasileiro de Desenho Industrial em Florianópolis, SC. Também trabalhou em escritórios de projeto e foi docente em diversas universidades latino-americanas, europeias, norte-americanas e asiáticas. Um exemplo disso é a Escola Superior de Desenho Industrial – esdi (Rio de Janeiro).

Sem dúvida, podemos dizer que Bonsiepe é um pioneiro em diferentes campos da teoria do design.

A metodologia projetual de Gui Bonsiepe

Gui Bonsiepe organizou a metodologia projetual de produtos da seguinte forma:

1. Problematização

2. Análise
2.1. Lista de Verificação
2.2. Análise Diacrônica
2.3. Análise Sincrônica
2.4. Análise Estrutural
2.5. Análise Funcional
2.6. Análise Morfológica
2.7. Análise do produto com relação ao Uso

3. Definição do Problema
3.1. Lista de Requisitos
3.2. Estruturação do Problema
3.3. Hierarquização de Requisitos

4. Anteprojeto/Geração de Alternativas
4.1. Brainstorming
4.2. Método 635
4.3. Método de Transformação
4.4. Caixa Morfológica
4.5. Criação Sistemática de Variantes
4.6. Desenhos e Esboços
4.7. Maquete e Modelo

5. Projeto

 

1. Problematização

1.1. O que?

A situação ou coisa que se deve melhorar, os fatores essenciais do problema, os fatores influentes.

1.2. Porque?

Os objetivos, a finalidade do projeto incluindo os requisitos/critérios que uma solução boa deve ter .

1.3. Como?

O caminho – os meios, métodos, técnicas, recursos humanos e econômicos, tempo disponível, experiência.

2. Análise

2.1. Lista de Verificação: serve para organizar de forma exaustiva as informações sobre os atributos de um produto, servindo para detectar
deficiências de informações a serem superadas.

2.2. Análise do produto com relação ao uso: serve para detectar os pontos negativos e criticáveis. Convém se utilizar da fotografia como técnica de documentação para localizar detalhes problemas, em caso de redesenvolvimento de um produto.

2.3. Análise Diacrônica: é a coleção de material histórico para demostrar a evolução e as mutações sofridas por um determinado produto no transcurso do tempo.

2.4. Análise Sincrônica: serve para reconhecer o universo do produto em questão e para evitar reinvenções. A comparação e a crítica dos produtos requer a formulação de critérios comuns. Convém incluir informações sobre preços, materiais e processos de fabricação.

2.5. Análise Estrutural: serve para reconhecer e compreender os tipos e o número dos componentes dos subsistemas. Bem como os princípios de montagem, tipologia de uniões e tipos de carcaça de um produto.

2.6. Análise Funcional: serve para reconhecer e compreender as características de uso de um produto.  Nesse sentido, inclui aspectos ergonômicos (macroanálise), e as funções técnico-físicas de cada componente ou subsistema do produto (microanálise).

2.7. Análise Morfológica: serve para reconhecer e compreender a estrutura formal (concepção formal) de um produto, sua composição, partindo de elementos geométricos e sua transições (encontros). Incluindo também informações sobre acabamento cromático e tratamento das superfícies.

3. Definição do Problema

3.1. Lista de requisitos: serve para orientar o processo projetual em relação às metas a serem atingidas. Sem dúvida convém formular cada requisito separadamente, e utilizar uma forma comum (frases positivas, sem negações).

3.2. Estrutura do problema: serve para ordenar os requisitos em grupos segundo afinidades, facilitando o acesso ao problema. É possível, de forma geral, representar essa estrutura através de uma árvore hierarquizada.

3.3. Hierarquização dos requisitos: serve para estabelecer prioridades no atendimento dos requisitos. Por isso quase sempre os requisitos são antagônicos (a otimização de um fator implica na sub otimização de outro fator). A interação dos fatores pode ser representada em forma de matrizes, indicando uma interação positiva, neutra ou negativa.

4. Anteprojeto/Geração de Alternativas

Para proceder a esta etapa várias são as técnicas que podem ser utilizadas, cujo objetivo é facilitar a produção de um conjunto de ideias básicas, como respostas prováveis a um problema projetual, entre elas:

4.1. Brainstorming

O brainstorming é um termo cunhado por Alex Osborn em 1953, autor do livro Applied Imagination. No entanto foi responsável pela grande difusão dos métodos de criatividade, em todos os ramos de atividades.

O brainstorming ou sessão de “agitação” de ideias é realizado em grupos. Por exemplo, um grupo composto de um líder e cerca de cinco membros regulares e outros cinco convidados. Nesse sentido os membros regulares servem para dar ritmo ao processo enquanto os membros convidados podem ser especialistas, que variam em função do problema a ser resolvido. De qualquer maneira, é importante haver também alguns não-especialistas no grupo, de modo a fugir da visão tradicional dos especialistas.

Por isso o líder deve estar preparado para orientar o grupo. Ele deve explicar qual é o problema. Por outro lado, também pode lançar desafios ao grupo, fazendo questionamentos pertinentes. As sessões de brainstorming devem ser gravadas, ou deve haver alguém para anotar as ideias.

Alternativas para solução do problema

A etapa de Ideação é a fase criativa, propriamente dita, quando são geradas as alternativas para a solução do problema. Nesta fase é importante o papel do líder, pois ele irá estimular a geração de ideias na direção pretendida e coibindo os julgamentos, que devem ser adiados.

Freqüentemente a ideação entra numa fase de frustração, quando a fluência das ideias vai diminuindo. Nesse ponto, a sessão pode ser suspensa para um afastamento deliberado do problema, por um período de um dia ou mais. Após esse período de relaxamento pode surgir a iluminação, quando a solução poderá aparecer mais facilmente.

A etapa de síntese consiste em analisar as ideias, juntando as soluções parciais em uma solução completa do problema. Finalmente, na etapa de avaliação, as ideias são julgadas, fazendo-se uma seleção das mesmas com o uso dos critérios iniciais.

Há três tópicos importantes a serem destacados:

a) A qualidade das ideias depende de uma boa preparação, considerando-se todos os aspectos pertinentes ao problema. De preferência, deve existir um ou dois membros do grupo que tenham familiaridade com o problema, a fim de esclarecer as dúvidas dos demais participantes da sessão. A visão de não especialistas também é importante para se fugir dos pensamentos tradicionais.

b) A quantidade de ideias é maior quando se separa a fase de Ideação daquela de Avaliação, de modo que a geração de ideias se processe livre de julgamentos. Contudo, o líder pode reposicionar o grupo, quando houver um desvio grande em relação à orientação inicial. Considerando que a criação segue um processo aleatório, a qualidade da solução depende da quantidade de ideias geradas, pois aumenta a chance de se selecionar uma boa ideia.

c) É importante conceder um tempo ao grupo para a incubação, com duração de pelo menos um dia (retornar no dia seguinte). Esse período de relaxamento e de desligamento voluntário do problema é importante para que a própria mente reorganize as ideias.

O brainstorming baseia-se no princípio: “quanto mais ideias, melhor”

É possível conseguir mais de 100 ideias em uma sessão de duas horas. As ideias iniciais geralmente são as mais óbvias e aquelas melhores e mais criativas costumam aparecer na parte final da sessão.

Contudo, se as ideias forem consideradas insatisfatórias, deve-se retornar ao processo, após um período de incubação. Entretanto, tem-se criticado o brainstorming justamente porque gera muitas ideias. Mas se tem dito que elas são superficiais e torna-se difícil fazer a avaliação posterior das ideias. Entretanto, ela é bastante útil em alguns casos, quando se quer uma pesquisa ampla, mesmo sem muita profundidade.

4.2. Método 635

Primeiramente cada participante anota num formulário três propostas em forma de esboços ou descrições verbais. Em seguida passa para o próximo colega, e esse trata de agregar três outras propostas. Por fim, depois de cinco minutos, troca-se novamente os formulários. Desse modo, o processo termina quando os formulários tiverem passados por todos os participantes (seis participantes).

4.3. Método de Transformação

O método de transformação ou também conhecido como método de busca de analogias, serve para aumentar a variedade de soluções. Isto é, utilizando casos similares em outras áreas por exemplo como na natureza, ou submetendo os componentes a transformações (verbos de manipulação). Por exemplo, utilizar em diferentes maneiras, adaptar casos paralelos, modificar, aumentar, minimizar, reduzir, substituir, recompor, inverter, combinar.

4.4. Criação Sistemática de Variantes

A criação sistemática de variantes serve para cobrir o universo de possíveis soluções, identificando princípios básicos e as possíveis combinações.

5. Conceito do Projeto

Requisitos selecionados que o projeto deverá possuir e que irão definir a sua configuração, funções, cores e materiais.

Acima de tudo, Bonsiepe ainda sugere que você realize um modelo volumétrico do projeto para uma análise final da solução. Nesse sentido, você poderá determinar se contempla todos os requisitos pré-determinados.

Por fim, Bonsiepe desenvolveu seus métodos de criação de produtos com o propósito de aperfeiçoar o desempenho profissional. Descrevendo técnicas e processos de criação de produtos a fim de resolver problemas existentes.

Bibliografia:

BONSIEPE, Gui e outros. Metodologia Experimental: Desenho Industrial. Brasília: CNPq/Coordenação Editorial, 1986.
BAXTER, M. Projeto de Produto: guia prático para o desenvolvimento de novos produtos. São Paulo: Edgard Blücher, 1998.